Emocao Afeta Atendimento

Como a emoção afeta o nosso atendimento, seja do óptico ao terapeuta visual

A visão é um dos sentidos mais importantes para nós, profissionais da saúde visual.

 

Grande parte da interação humana ocorre por meio dela. Tradicionalmente, áreas como óptica, optometria, contatologia e terapia visual (seja ortóptica ou comportamental) focam nos aspectos fisiológicos e refrativos do olho – portanto, não patológicos. No entanto, a forma como percebemos o mundo é profundamente influenciada por fatores psicológicos e emocionais.

Este bate-papo pretende introduzir, de forma leve e acessível, a intrínseca relação entre emoções, psicologia e percepção visual, destacando como esses elementos impactam a prática diária dos profissionais do setor óptico – desde a venda de óculos e adaptação de lentes de contato até a prescrição e intervenção terapêutica visual.

Compreender essa dinâmica é essencial para aprimorar o atendimento, aumentar a assertividade nas condutas e, sobretudo, melhorar a qualidade de vida dos clientes e pacientes. O objetivo aqui é oferecer ao leitor da opticanet  uma base científica introdutória que permita reconhecer e integrar a dimensão psicossocial da visão em sua prática profissional.

Para construir esta coluna, realizei uma revisão bibliográfica em bases como PubMed, SciELO e periódicos especializados em psicologia, neurociência e optometria – sem a pretensão de ser exaustivo ou excessivamente técnico. Busquei temas relacionados ao impacto das emoções (medo, ansiedade, tristeza, alegria) na percepção visual, às repercussões psicológicas de condições visuais específicas, como o estrabismo, e à influência dos fatores emocionais no sucesso da adaptação de lentes de contato.

 

A Percepção Visual e as Emoções

A percepção visual não é um processo passivo de registro de imagens, mas uma construção ativa do cérebro, moldada por experiências, expectativas e, sobretudo, emoções.

Diversos estudos mostram que alterações emocionais modificam profundamente como e o que enxergamos – desde processos de baixo nível, como contraste e nitidez, até a interpretação de ambientes complexos.

O medo, por exemplo, tem efeito significativo na percepção. Pesquisas de Phelps, Ling e Carrasco (2006) demonstraram que a exposição a rostos com expressões de medo aumenta a sensibilidade ao contraste visual. Isso ocorre porque a amígdala – estrutura cerebral ligada ao processamento emocional – envia sinais ao córtex visual primário, ampliando a capacidade de detectar potenciais ameaças.

Para o profissional da saúde visual, isso significa que um paciente ansioso ou receoso pode apresentar percepção alterada de detalhes finos, influenciando diretamente sua acuidade visual subjetiva durante o exame.

Por isso, colega da saúde visual: atenda com sorriso. Ele altera, literalmente, a forma como o outro vê o mundo.

 

Humor e Foco Perceptivo

O estado de humor também modifica a forma como percebemos o ambiente. Emoções negativas, como tristeza, podem tornar o mundo visualmente “mais difícil”. Estudos sobre percepção incorporada (embodied perception) mostram que pessoas tristes percebem colinas como mais íngremes, distâncias como maiores e tarefas visuais como mais exigentes.

Além disso, emoções negativas tendem a estreitar o foco perceptivo, levando o indivíduo a se fixar em detalhes emoções positivas, por outro lado, ampliam a percepção global.

Na terapia visual, isso tem implicações importantes: o estado emocional pode influenciar o desempenho nas tarefas e a resposta às intervenções.

 

Venda e Prescrição de Óculos

Entender a influência emocional na percepção visual é fundamental para quem vende ou prescreve óculos. Um cliente/ paciente ansioso pode ter dificuldade em descrever suas necessidades, avaliar conforto e clareza, ou se adaptar a uma nova prescrição.

O estado emocional pode, inclusive, gerar falsa sensação de “erro na receita” – quando, na verdade, o desafio está na percepção subjetiva.

Por isso, uma abordagem empática, acolhedora e sem pressa não é apenas boa prática: é cientificamente necessária.

 

Adaptação de Lentes de Contato

A adaptação de lentes de contato é fortemente influenciada por fatores psicológicos. Estudos mostram que ansiedade e estresse estão associados a maior desconforto percebido, menor adesão às orientações e maior chance de abandono.

Pacientes ansiosos tendem a reter menos informações sobre cuidados com as lentes e a supervalorizar sensações normais iniciais de adaptação.

Profissionais que identificam e acolhem essas emoções conseguem aumentar significativamente o sucesso no processo adaptativo.

 

Estrabismo e o Impacto Psicossocial

O estrabismo tem repercussões que vão muito além da questão funcional. Crianças e adolescentes com desalinhamento ocular frequentemente enfrentam desafios emocionais, como baixa autoestima, insegurança e dificuldades nas interações sociais.

A terapia visual para estrabismo, portanto, deve considerar tanto os aspectos fisiológicos quanto os emocionais.

Inclusive, já no século XIX, Sigmund Freud descrevia, em Estudos sobre a histeria (1895), casos de estrabismo associados a crises histéricas e possíveis pseudomiopias – um exemplo clássico de como emoções podem manifestar-se no sistema visual.

 

A Visão é Muito Mais que um Olho

A visão não “acontece” no olho. O globo ocular funciona como uma antena sensorial, captando estímulos. A interpretação – o verdadeiro “ver” – ocorre nas vias visuais e no cérebro.

Por isso, a visão transcende a fisiologia ocular: está profundamente entrelaçada às emoções e à experiência subjetiva de cada indivíduo.

Profissionais do setor óptico que compreendem essa dimensão psicossocial conseguem oferecer um atendimento mais humano, mais eficaz e mais completo.

Reconhecer como o estado emocional influencia a percepção, a adaptação a novas correções e a resposta à terapia visual é um diferencial profissional – e um cuidado ético.

 

Muito Além do Equipamento

Nenhuma tecnologia substitui o olhar humano, a escuta atenta e o acolhimento.

Aparelhos medem curvaturas, comprimentos axiais e índices refrativos – mas não medem emoções, medos, histórias, expectativas.

Enxergar envolve tudo isso.

Por isso, ópticos, optometristas, contatologistas e terapeutas visuais têm uma missão que vai além de compensar a visão: têm o poder humano de cuidar de vidas e enxergar almas.

 

 

Autor: Prof. Marcelo Santana

 

Sobre Abióptica

A Abióptica – Associação Brasileira da Indústria Óptica atua desde 1997 como representante do segmento óptico brasileiro. São mais de 200 empresas associadas que respondem por mais de 95% do mercado das marcas comercializadas no país. Um dos principais objetivos da Abióptica é promover a união da indústria e varejo, fortalecendo a defesa dos interesses do consumidor e do setor.

 

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