Os Olhos E O Fármaco

Os olhos e o fármaco

Em nosso último encontro falamos sobre o uso crescente e, muitas vezes, indiscriminado de fármacos na sociedade, e seus impactos silenciosos sobre a visão e a saúde ocular.

Embora essenciais no tratamento de inúmeras condições, muitos medicamentos podem provocar alterações visuais e oculares sutis, progressivas ou até irreversíveis, frequentemente negligenciadas tanto por pacientes quanto por profissionais. Essa “zona cega” nos roteiros terapêuticos ganha maior relevância diante do aumento da polifarmácia, do envelhecimento populacional, uso abusivo de fármacos para emagrecimento e do crescimento do uso de psicofármacos. Diante desse cenário, torna-se imprescindível que nos, profissionais da saúde visual, adotemos uma postura vigilante e preventiva, integrando a anamnese medicamentosa à prática clínica. Mais do que corrigir ametropias (no caso dos optometristas), cabe a esses profissionais atuar como sentinelas da saúde ocular, identificando possíveis riscos, orientando adequadamente os pacientes e promovendo o diálogo com a equipe médica, em favor da preservação da visão e da qualidade de vida.

 

Com isso, quero compartilhar mais um trecho do mestrado: 

“O uso de medicamentos tornou-se cada vez mais comum, impulsionado pelo avanço da indústria farmacêutica, pela ampla divulgação de seus benefícios e pelo fácil acesso a esses produtos. Esse cenário favorece o consumo indiscriminado, muitas vezes motivado pela busca por soluções rápidas para dores, tratamentos diversos ou fins estéticos, configurando um problema de saúde pública. A ausência de acompanhamento profissional e a leitura superficial de bulas comprometem a compreensão dos efeitos adversos e das interações medicamentosas, elevando os riscos à saúde. Mesmo quando utilizados corretamente, os fármacos podem provocar reações adversas significativas, especialmente sobre a saúde ocular e visual – áreas frequentemente negligenciadas por pacientes e até por profissionais da saúde (SABHERWAL et al., 2023 SOUZA et al., 2018 MADEIRA et al., 2020)”.

Alterações visuais decorrentes do uso de medicamentos sistêmicos podem variar de manifestações leves e transitórias a danos irreversíveis, afetando significativamente a qualidade de vida. Fármacos como corticosteroides, anticolinérgicos, agentes quimioterápicos e aqueles utilizados no controle da hipertensão e do diabetes, mesmo na ausência de sintomas oculares imediatos, estão associados ao desenvolvimento de patologias como catarata, glaucoma, degeneração macular e diversas maculopatias. Estima-se que mais de 40% dos pacientes com doenças sistêmicas graves apresentem efeitos colaterais oftalmológicos relevantes, cujo reconhecimento precoce é dificultado pelo caráter assintomático das fases iniciais. Apesar da disponibilidade de informações em bulas e rótulos, a baixa adesão dos pacientes à leitura crítica desses conteúdos compromete a identificação da relação entre os sintomas visuais e o uso medicamentoso (SMITH et al., 2019 TORRES et al., 2024).

A toxicidade ocular pode acometer estruturas como retina, nervo óptico e vasos sanguíneos, sendo muitas vezes reversível quando diagnosticada precocemente. A suscetibilidade do paciente é modulada por fatores como dose, polifarmácia e comorbidades, com mecanismos de toxicidade envolvendo alterações celulares, imunológicas e metabólicas. O aumento do uso de psicofármacos – impulsionado pela elevação dos transtornos mentais no contexto pós-pandêmico – tem sido associado a efeitos adversos oculares, incluindo midríase, olho seco, visão turva, além de maior risco para glaucoma e catarata (Constable et al., 2023 Somisetty et al., 2023).

Nesse contexto, torna-se essencial avaliar os impactos dos medicamentos na saúde ocular e visual, principalmente em tratamentos sistêmicos. Fármacos como amiodarona, aspirina, anti-histamínicos e cloroquina, amplamente prescritos, também apresentam riscos visuais (AHMAD e MEHTA, 2021).

Vale lembrar que, embora os medicamentos sejam fundamentais no tratamento de diversas patologias, seus efeitos adversos podem atingir todo o organismo &mdash inclusive o sistema visual. Corticosteroides, por exemplo, estão associados ao aumento do risco de catarata e glaucoma, duas das principais causas de cegueira no mundo (RELATÓRIO MUNDIAL SOBRE A VISÃO, 2019), enquanto fármacos quimioterápicos podem levar a retinopatias e os anticolinérgicos, usados em distúrbios respiratórios, podem comprometer a acomodação visual, provocando embaçamento (CONSTABLE et al., 2023).”

 Mesmo diante do melhor atendimento clínico – por exemplo: uma retinoscopia precisa realizada pelo optometrista -, da melhor lente disponível no mercado oferecida pelo óptico, da lente de contato mais adequada prescrita pelo contatólogo ou, ainda, da aplicação da melhor técnica terapêutica no tratamento das disfunções binoculares, estrábicas ou não estrábicas, o resultado final poderá ser frustrante se não houver atenção ao uso de fármacos pelo paciente.

O objetivo não é suspender medicamentos nem gerar medo ou insegurança no paciente, mas orientá-lo de forma responsável. É fundamental indicar a realização de exames e avaliações conjuntas com o médico oftalmologista e com o profissional (médico)  que prescreveu o fármaco. Nesse sentido, nossa maior missão é o correto encaminhamento aos médicos especialistas, respeitando os limites e a complementaridade das áreas de atuação.

Diante da suspeita de possível interferência medicamentosa na função visual ou ocular, o diálogo claro e ético com o paciente torna-se indispensável. Ao conscientizá-lo sobre essa possibilidade e orientá-lo a levar tais informações ao médico responsável, conseguimos prevenir consequências importantes, como a perda de confiança no atendimento optométrico, o desânimo em relação às lentes oftálmicas ou às lentes de contato utilizadas, e até mesmo a interferência negativa nos resultados da terapia visual.

Os ópticos, de modo geral, sempre indicam as melhores lentes oftálmicas ou lentes de contato – independentemente da marca -, buscando o máximo desempenho visual e conforto ao paciente. No entanto, a ausência de uma observação criteriosa da bula de determinados medicamentos, associada aos sintomas relatados pelo paciente que poderão coincidir com o início do uso de um fármaco, pode comprometer toda uma cadeia de trabalho.

Essa cadeia tem início nos investimentos e pesquisas da indústria óptica, passa pelo atendimento clínico do optometrista, atendimento na óptica, e estende-se ao trabalho do contatólogo e, muitas vezes, alcança o terapeuta visual. Quando um efeito farmacológico interfere no sistema visual (ou ocular)  e não é devidamente considerado, o resultado pode ser um prejuízo significativo em termos de esforço profissional, estudo, tecnologia aplicada e investimento científico.

Não há aqui a pretensão de solucionar esse possível problema de forma definitiva, mas de provocá-lo, caro leitor, à reflexão clínica. Que possamos, no atendimento ao paciente, incluir – caso ainda não o façamos – uma investigação cuidadosa sobre o uso de medicamentos na anamnese, reconhecendo os cuidados farmacológicos como parte essencial de uma prática visual mais segura, ética e integrada. Como resultado disso um tratamento de excelência para o nosso cliente/paciente.

Na próxima conversa falaremos sobre visão e alterações emocionais . Você pode sugerir temas para essa coluna, entrando em contato no instagram da opticanet ou prof_marcelo_santana.

 

Até mais! Feliz ano novo!!!

 

Fonte: Marcelo Santana

 

Sobre Abióptica

A Abióptica – Associação Brasileira da Indústria Óptica atua desde 1997 como representante do segmento óptico brasileiro. São mais de 200 empresas associadas que respondem por mais de 95% do mercado das marcas comercializadas no país. Um dos principais objetivos da Abióptica é promover a união da indústria e varejo, fortalecendo a defesa dos interesses do consumidor e do setor.

 

Leia também: Expo Óptica 2026 tem 100% dos espaços vendidos e deve superar R$ 1,2 bi em negócios

Buscar